A Reologia dos Polímeros: Fundamentos e Aplicações Práticas no Processamento Industrial
- Sérgio Mello
- 3 de nov. de 2024
- 7 min de leitura
Caros colegas e rede, ainda em férias e curtindo os últimos dias estava revendo algumas literaturas sobre materiais de construção mecânicas e me deparo com um pequeno texto do livro do Rômulo Navarro, Fundamento de reologia de polímeros. A reologia talvez seja um dos temas mais desconhecidos do pessoal "operacional" do plásticos, creio que parte por não correlacionar a importância do comportamento de fluidos não-newtonianos e que a avaliação de fluidos ideais, medidas reométricas e viscosimetria sejam análises mais voltadas à academia. O intuito desse artigo é dar uma breve descrição de seus princípios e possíveis abrir uma série devido ao vasto campo desse tema.

1. Fundamentos da Reologia de Polímeros
A palavra Reologia deriva do grego, onde "Rheo" significa deformação e "Logia" significa estudo ou ciência. Em termos práticos, é a ciência que estuda como os materiais se deformam e fluem quando submetidos a forças externas. No caso dos polímeros, este entendimento é crucial pois estes materiais apresentam um comportamento único, combinando características tanto de sólidos quanto de líquidos.
Imagine um polímero sendo processado: ele precisa fluir como um líquido para preencher um molde, mas também deve manter certa "memória" de sua forma, como um sólido. Este comportamento dual é chamado de viscoelasticidade.
Para quantificar este comportamento, utilizamos o número de Deborah (De), uma relação matemática que compara dois tempos fundamentais:
De = λᵣ/t
Onde:
λᵣ (lambda r) = tempo de relaxamento do material (segundos) Representa o tempo necessário para ocorrer movimentos moleculares Para polímeros fundidos: λᵣ ≈ 1 a 1000s Para soluções poliméricas diluídas: λᵣ ≈ 10⁻³ s Para água: λᵣ ≈ 10⁻¹² s
t = tempo de observação ou duração do experimento/processo (segundos) Tempo característico do processo ou deformação Tempo de aplicação da tensão ou deformação Exemplo: tempo de um ciclo de injeção, tempo de residência na extrusora
Este número define o comportamento do material:
De → ∞: comportamento sólido elástico
De → 0: comportamento de fluido viscoso
∞ > De > 0: comportamento viscoelástico (típico de polímeros)
Na prática, um mesmo polímero pode apresentar diferentes comportamentos dependendo da escala de tempo do processo. Por exemplo, o PET usado em garrafas:
Em temperatura ambiente: comporta-se como sólido (De alto)
Durante a injeção: comporta-se como líquido viscoso (De baixo)
Durante o sopro: apresenta comportamento viscoelástico (De intermediário)
Este entendimento é fundamental para:
Definir condições de processamento (velocidade, pressão e temperatura);
Prever comportamento do material
Otimizar design de produtos ( especialmente em paredes finas);
2. Comportamento Não-Newtoniano e Processamento
Chamamos os fluidos comuns (água e óleo pro exemplo) "Newtorianos" quando a sua viscosidade permanece constante independente da pressão/força aplicada, todavia, os polímeros fundidos são muito mais complexos: sua viscosidade muda conforme aplicamos diferentes forças ou taxa de cisalhamento. É como se o material "respondesse" de forma diferente dependendo de como o manipulamos.
Os polímeros fundidos apresentam comportamento pseudoplástico, o que significa que sua viscosidade diminui à medida que aumentamos a taxa de cisalhamento, uma boa analogia seria a sua maionese (que também é um pseuplástico) que fica mais fluida quando apertamos o tubo com mais força. Este comportamento é descrito matematicamente pela equação:
η = K × γ^(n-1)
Onde:
η (eta): viscosidade aparente É a "resistência" que o polímero apresenta ao fluxo Muda conforme as condições de processamento Unidade: Pa.s (Pascal.segundo)
K: índice de consistência Indica o "nível" de viscosidade do material Quanto maior K, mais viscoso é o polímero Depende da temperatura e do peso molecular
γ (gamma): taxa de cisalhamento Representa a "velocidade" de deformação Em processamento pode variar de 1 a 10000 s⁻¹ Diferentes processos = diferentes taxas (extrusão vs. injeção)
n: índice de comportamento do fluxo (n < 1) Quanto menor n, mais pseudoplástico é o material n = 1: comportamento Newtoniano n típico para polímeros: 0.2 a 0.8
3. Correlação com Índice de Fluidez (MFI)
O Índice de Fluidez (MFI) é provavelmente a propriedade reológica mais utilizada na indústria de transformação de polímeros e certamente a mais conhecida, funcionando como um "CPF" do material. Representa uma medida indireta da viscosidade do polímero sob condições padronizadas de temperatura e pressão, sendo inversamente proporcional ao peso molecular.
A relação fundamental entre peso molecular e viscosidade é descrita pela lei de Mark-Houwink:
η₀ = KMw^a
Onde:
η₀ (eta zero): viscosidade no platô Newtoniano Viscosidade em baixas taxas de cisalhamento Condição mais próxima do estado de equilíbrio
K: constante característica do polímero Depende do sistema polímero-solvente Varia com a temperatura
Mw: peso molecular médio Determina o comprimento médio das cadeias Influencia diretamente as propriedades mecânicas
a: expoente que varia com a forma da molécula Para peso molecular > Mc (peso molecular crítico): a ≈ 3.4 Para peso molecular < Mc: a ≈ 1.0 Mc típico ≈ 15.000 g/mol
Esta relação se traduz na prática industrial da seguinte forma:

Correlações - MFI X Viscosidade X Peso Molecular

Correlações - MFI X Viscosidade X Peso Molecular
4. Processamento em Rosca Única: Controle e Otimização
O processamento em rosca única (single screw) é predominante na indústria de transformação. Seja em injeção ou extrusão, o controle do comportamento reológico é fundamental para a qualidade do processo:

Número de Deborah (De) ideiais para fases de plastificação
A geometria da rosca em equipamentos de processamento de polímeros é fundamental para a qualidade do produto final. A relação entre o comprimento e o diâmetro da rosca (L/D) varia conforme a aplicação e as exigências do produto. Em extrusão de filmes, por exemplo, utiliza-se tipicamente uma relação L/D de 30:1, pois é necessária uma excelente homogeneização do material para garantir a uniformidade e propriedades óticas do filme. Já na extrusão de perfis, uma relação L/D de 24:1 é geralmente suficiente, pois o foco está em conseguir uma boa plastificação sem comprometer a produtividade. No caso da injeção, onde a velocidade de plastificação é crucial para a eficiência do ciclo, trabalha-se com uma relação L/D menor, em torno de 20:1.
Durante o processamento, diversos problemas podem surgir, e sua solução está intimamente ligada ao entendimento do comportamento reológico do material. Na extrusão, um dos desafios mais comuns é a variação dimensional do produto, que pode ser controlada através do ajuste fino da pressão e temperatura do processo. A formação de géis e pontos pretos, frequentemente associada à degradação térmica, está relacionada ao tempo de residência excessivo ou temperaturas inadequadas. Já a fibrilação, especialmente crítica em filmes, ocorre quando a taxa de cisalhamento e a temperatura não estão adequadamente balanceadas.
No processo de injeção, o rechupe (rechupo) é um defeito típico que pode ser minimizado através do correto ajuste da pressão de recalque e temperatura do material. Problemas de queima geralmente estão associados a velocidades de injeção muito altas ou temperaturas excessivas, enquanto rebarbas são frequentemente resultado de pressões inadequadas ou força de fechamento insuficiente do molde.
A chave para um processamento bem-sucedido está na compreensão de que todos estes parâmetros - L/D, pressão, temperatura, taxa de cisalhamento e tempo de residência - estão interligados e afetam diretamente o comportamento reológico do polímero. Um ajuste em qualquer uma destas variáveis inevitavelmente impactará as demais, exigindo uma abordagem sistêmica para a otimização do processo. Por exemplo, uma rosca com L/D maior proporcionará maior tempo de residência e melhor homogeneização, mas também demandará maior controle da temperatura para evitar degradação. Da mesma forma, velocidades mais altas podem melhorar a produtividade, mas exigem um controle mais preciso da temperatura e pressão para evitar defeitos no produto final.
5. Otimização de processos
A otimização do processamento de polímeros é uma arte que combina conhecimento técnico e experiência prática, onde o controle adequado da temperatura, velocidade e pressão é fundamental para obter produtos de qualidade.
O perfil de temperatura ao longo da rosca varia significativamente dependendo do tipo de polímero processado. Para poliolefinas como PE e PP, utiliza-se um perfil crescente de temperatura, começando com temperaturas mais baixas na zona de alimentação e aumentando gradualmente até a matriz. Esta configuração permite um aquecimento gradual do material, evitando fusão prematura e aproveitando o calor gerado pelo cisalhamento. Já para polímeros de engenharia como PET e PC, adota-se um perfil decrescente, com temperaturas mais altas na alimentação, reduzindo gradualmente até a matriz. Esta estratégia é necessária devido à maior sensibilidade destes materiais à degradação térmica e à necessidade de controle preciso da viscosidade. Para materiais como PVC e PS, um perfil de temperatura em platô (constante) é mais adequado, permitindo melhor controle do processo e evitando degradação térmica.
O controle da velocidade de processamento é igualmente crucial. Na extrusão, a velocidade é limitada pela tensão de cisalhamento na parede (τw crítico), pois ultrapassar este limite pode resultar em defeitos como fratura do fundido ou pele de tubarão. Já na injeção, o fator limitante é a taxa de cisalhamento máxima (γw máximo), que quando excedida pode causar degradação do material ou defeitos superficiais na peça.
A pressão é outro parâmetro fundamental que precisa ser cuidadosamente controlado. Na extrusão, a contrapressão geralmente é mantida entre 20 e 50 bar, proporcionando homogeneização adequada sem comprometer a estabilidade do processo ou causar degradação excessiva do material. No processo de injeção, a pressão de recalque tipicamente varia entre 40% e 70% da pressão de injeção, dependendo da geometria da peça e do material processado. Este controle é essencial para compensar a contração do material e garantir dimensões precisas no produto final.

Exemplo de causa e efeito para processos - Analisar é a chave de bons resultados
A interação entre estes três parâmetros - temperatura, velocidade e pressão - é complexa e interdependente. Por exemplo, um aumento na velocidade de processamento gera mais calor por cisalhamento, podendo requerer ajustes no perfil de temperatura. Da mesma forma, alterações na pressão podem afetar a viscosidade do material, necessitando compensações na temperatura ou velocidade. O processador experiente entende estas relações e ajusta os parâmetros de forma holística, considerando não apenas os valores individuais, mas também sua interação e impacto global no processo.
Esta otimização não é um processo estático, mas dinâmico, que requer monitoramento constante e ajustes finos baseados nas características do material, condições ambientais e requisitos do produto final.
6. O que podemos concluir?
A reologia, embora frequentemente vista apenas como um conceito acadêmico, representa na verdade a espinha dorsal do processamento de polímeros. Seu entendimento vai muito além de fórmulas e gráficos - é uma ferramenta essencial que conecta o comportamento molecular do material com o desempenho prático na produção.
No dia a dia industrial, a aplicação dos conceitos reológicos permite não apenas compreender como o material se comporta durante o processamento, mas também antecipar e resolver problemas, otimizar condições operacionais e desenvolver novos produtos. Quando um operador ajusta a temperatura ou velocidade da rosca, está na verdade modificando o comportamento reológico do material para atingir as propriedades desejadas no produto final.
A compreensão da reologia se traduz diretamente em benefícios tangíveis: redução de custos através da otimização de processos, aumento de produtividade com ciclos mais eficientes, melhoria contínua da qualidade e, principalmente, capacidade de inovação no desenvolvimento de produtos. É a ponte que conecta o conhecimento científico à prática industrial, transformando conceitos teóricos em resultados reais.
Boa semana a todos! Go ahead!
REFERÊNCIAS
BRETAS, R. E. S.; D'ÁVILA, M. A. Reologia de Polímeros Fundidos. 2. ed. São Carlos: EdUFSCar, 2010. 257 p.
CANEVAROLO JR., S. V. Ciência dos Polímeros: um texto básico para tecnólogos e engenheiros. 3. ed. São Paulo: Artliber, 2013. 280 p.
NAVARRO, R. F. Fundamentos de Reologia de Polímeros. 1. ed. Caxias do Sul: EDUCS, 1997. 300 p.
TADMOR, Z.; GOGOS, C. G. Principles of Polymer Processing. 2. ed. New Jersey: Wiley-Interscience, 2006. 984 p.
